O atacante Walter é uma jovem promessa do Internacional. Destaque das seleções brasileiras de base, recebeu propostas do futebol europeu no início do ano.
Os dirigentes colorados, espertos, não o negociaram. Afinal, o garoto joga bola o suficiente para dar alegrias ao Inter, e, claro, ficar ainda mais valorizado no mercado da bola.
Descontente por ter de ficar no Beira-Rio — e além do mais no banco de reservas — Walter sumiu. Passou mais de dez dias sem treinar, trancado em seu apartamento. “Só vou voltar porque tenho contrato”, desabafou, sem pestanejar, reclamando também do técnico Jorge Fossati. Ontem, retornou aos treinos pelo time B.
O Imperador Adriano, como se sabe, ficou alguns dias longe da Gávea. É milionário, jogou na Europa e disputou Copa do Mundo.
Nada disso, porém, o afasta de sérios problemas. O flamenguista seria um desafio e tanto até mesmo para o mais renomado dos psicólogos.
Dizer que Walter caminha para ter o mesmo destino seria um exagero. Mas fica a reflexão sobre a maneira como a “máquina futebol” engole sem piedade todos os que dela se aproximam ser ler o manual de instruções.
E por manual de instruções entenda-se algum tipo de instinto capaz de proteger os jogadores de gente interesseira, contratos traiçoeiros, álcool, drogas…
Às vezes este instinto é desenvolvido por meio da boa formação familiar, da inteligência ou do equilíbrio emocional.
Duro é esperar tudo isso de quem cresceu preocupado apenas em sobreviver.
Este texto faz parte da coluna “País do Futebol”, publicada todas as terças-feiras no Diário de S. Paulo.