15 de May de 2012

O boicote esportivo no mundo da ideologia seletiva

Por @zeantoniolima

Com o fim dos campeonatos nacionais, as atenções do futebol europeu vão se voltar para a Eurocopa e, mais especificamente, para o “boicote” que dirigentes da União Europeia planejam impor à Ucrânia. Serão tempos de notícias tolas. O boicote é, na verdade, um arremedo de boicote, reflexo de um mundo sem ideologias.

O “boicote” é a ameaça de diplomatas da UE de não viajarem para a Ucrânia, sede da competição ao lado da Polônia. O motivo é o tratamento que a ex-primeira-ministra Yulia Tymoshenko (acima) estaria recebendo na prisão por parte do governo do atual presidente Viktor Yanukovych (abaixo). Em outubro, Tymoshenko foi condenada a sete anos de prisão por abuso de poder, em um julgamento classificado como “meramente político” pela UE e pelos EUA.

E o que está por trás da condenação? Há suspeitas de que Tymoshenko não seja mesmo flor que se cheire, mas o julgamento tem toda a aparência de vingança por parte de Yanukovych. Tymoshenko é uma das líderes da chamada Revolução Laranja, que em 2004 evitou a posse de Yanukovych após uma eleição considerada fraudulenta. Em 2010, os dois disputaram a eleição presidencial e ele venceu (aparentemente sem irregularidades). E onde entram a UE e a Rússia? A Ucrânia é um país divido. A grosso modo, o oeste é católico, pró-ocidente e fala ucraniano. O leste é ortodoxo, pró-Rússia e fala russo. Há uma grande disputa por influência na Ucrânia, e Tymoshenko colocou o país no caminho desejado pelos europeus ocidentais.

Assim, Tymoshenko virou queridinha da UE. Mas será que isso vale o boicote? Um boicote eficiente, como o sofrido pela África do Sul por conta da nojeira do Apartheid, precisa de apoio popular. A ausência de um, dez ou 20 diplomatas e governantes não fará rigorosamente diferença nenhuma para Tymoshenko, Yanukovych ou qualquer outra pessoa. E como sustentar um boicote popular (e portanto eficiente) se pairam dúvidas também sobre o motivo do boicote? Com o continente em crise, o torcedor europeu quer é aproveitar a Euro para se divertir um pouco, e não perder a Eurocopa por conta de um boicote sugerido justamente pelo establishment político que inventou a crise.

Um boicote de verdade é uma arma poderosa. Ele é capaz de levar uma situação política para uma imensa quantidade de pessoas que, normalmente, não estariam interessadas no assunto. É publicidade ruim, humilhação e pressão política sobre um governo. A UE acusa Yanukovych de fazer justiça “seletiva”. Mas, num mundo cheio de hipocrisia, como é o nosso, que causa poderia promover um boicote? Que país, depois de se calar com a realização do GP do Bahrein e de celebrar “um mundo, um sonho” nos Jogos de Pequim em 2008, pode boicotar a Ucrânia?

Fotos: Alexander Prokopenko / Divulgação e UN Photo

          

10 de May de 2012

As escolhas de Tite

Por @FChiorino

O Corinthians é um gigante do futebol brasileiro. Ainda assim, historicamente, o clube acostumou-se a viver cercado por crises e insatisfação da torcida. A cobrança excessiva dos fieis ainda existe, mas o ambiente mudou significativamente nos últimos anos.

O Corinthians é hoje um clube que é protagonista das competições que disputa. Chega quase sempre às rodadas finais com chances reais de título. O que mudou? O que se vê é um time que perde poucos jogadores a cada ano e consegue manter os destaques por um período maior. As reposições são rápidas e as mudanças contínuas de treinadores desaceleraram.

Ambiente mais pacífico, investimentos certeiros do departamento de marketing, apoio político, construção do estádio. Tudo relativamente em ordem. Mas ainda falta a Taça Libertadores, objeto de desejo de 11 a cada 10 corintianos. Essa obsessão começa a ganhar contornos mais claros. E um dos grandes responsáveis por essa guinada é Tite.

O treinador venceu o último Brasileiro sob uma chuva de críticas e contestações. Os mais fanáticos acreditavam que para Libertadores seria necessário um técnico de maior bagagem. E hoje é possível enxergar um Corinthians extremamente eficiente. O esquema de jogo proposto é pragmático. Uma defesa que passa diversos jogos sem tomar gol, a melhor dupla de volantes do país e um ataque que funciona na base do revezamento.

Havia falhas graves no time titular. E Tite soube reger as mudanças com a Libertadores em movimento, o que normalmente é visto como um suicídio. O goleiro Júlio César abusou das falhas nos momentos decisivos e deu lugar a um seguro Cássio. O volante Edenilson ganhou vaga na lateral-direita e desbancou rapidamente o combalido Alessandro. Alex era considerado titular antes de assinar o contrato, mas Tite insistiu com Danilo, que se mostrou fundamental nos momentos mais críticos. Liedson, até então imexível no ataque, foi sacado após evidente deficiência física e técnica. E promoveu-se um rodízio entre Jorge Henrique e Willian, em que o time ganhou mais mobilidade pelas pontas e deixou de centralizar as finalizações. Foi-se Adriano, um peso morto com regalias inaceitáveis.

Caminho árduo ainda deverá ser percorrido para a conquista da Libertadores. De fato, nessa edição, o Corinthians ainda não foi testado por um grande clube do continente e viverá agora o primeiro embate contra um brasileiro. Mas nada indica que entrará em campo um time aflito e desequilibrado emocionalmente. Esse Corinthians parece ter incorporado a frieza de Tite. Até o sofrimento é calculado.  Um treinador que ganha de 1 a 0, sem qualquer constrangimento. E que não para de ganhar. A América nunca esteve tão perto.

          

8 de May de 2012

O grande vitorioso do futebol brasileiro

Por @maia_otavio

O ranking publicado nesta segunda-feira pelo Esporte Fino nos ajuda a ter uma visão panorâmica do que aconteceu no futebol brasileiro nos últimos dez anos e a dar a dimensão exata ao sucesso de cada clube.

Um olhar atento, no entanto, mostra que o grande vitorioso do período não foi esta ou aquela equipe nem este ou aquele jogador. Basta procurar o ponto comum entre Internacional, São Paulo e Santos, os três mais bem colocados na lista, para identificar quem é o maior vencedor.

Uns vão falar em estrutura e outros em investimentos na base, mas o ponto que une realmente a história recente dessas três agremiações tem nome e sobrenome: Muricy Ramalho.

O treinador matuto não foi chamado de fenômeno, de gênio nem de salvação do futebol brasileiro, mas desequilibrou os campeonatos muito mais do que qualquer craque que tenha passado pelo futebol nacional de 2002 a 2011.

Vejam que por pouco Muricy não é mais vitorioso do que qualquer clube no período analisado. No ranking do Esporte Fino, ele teria acumulado pontos suficientes para estar à frente do Santos, que nesses dez anos contou com craques como Diego, Robinho, Neymar e Ganso.

Incrível que enquanto os times alternam fases de glória e de seca, o treinador mantém uma regularidade de títulos impressionante.

Uma visita à história de Muricy mostra que na última década ele foi uma espécie de Midas: onde colocou a mão virou ouro. O cartel acumulado no período inclui uma Libertadores, quatro Brasileiros, dois Paulistas, dois Gaúchos e um Pernambucano, títulos distribuídos por Santos, São Paulo, Fluminense, Internacional e Náutico.

Muricy não é só o melhor do momento. É o melhor do momento há quase dez anos. Por essa consistência e pela boa fase atual, acho que nunca vi alguém merecer tanto uma vaga na Seleção.

É bom Mano e a CBF abrirem o olho. Porque Muricy não pára de ganhar e de se distanciar dos outros treinadores brasileiros. E em 2014, sem um grupo brilhante, não vamos poder nos dar ao luxo de abrir mão de ninguém que seja o melhor em nada.

O tempo corre…

          

7 de May de 2012

1º Ranking Esporte Fino do Futebol Brasileiro

Chegou a hora de discutir quem realmente faz parte da elite do futebol brasileiro nos dias atuais. A ideia é deixar de lado a prática preguiçosa de classificar sempre os mesmos clubes entre os “grandes”, “médios” e “pequenos”. Como não existe uma métrica ideal para contextualizar as conquistas, o Esporte Fino utilizou uma fórmula empírica para o novo ranking.

Ele será atualizado anualmente e levará em conta o desempenho dos clubes nos últimos dez anos. Assim, esse primeiro levantamento considera o período entre 2002 e 2011. Entram na lista os clubes que ganharam alguma dessas competições abaixo durante esse período:

Nacionais e Internacionais:

Campeonato Brasileiro (Série B): 25 pontos
Vice Campeonato Brasileiro (Série B): 10 pontos
Copa do Brasil: 50 pontos
Vice Copa do Brasil: 20 pontos
Copa Sul-Americana: 60 pontos
Vice Copa Sul-Americana: 30 pontos
Campeonato Brasileiro (Série A): 75 pontos
Vice Campeonato Brasileiro (Série A): 40 pontos
Libertadores: 150 pontos
Vice Libertadores: 80 pontos
Mundial: 200 pontos

Estaduais:

Paulista: 20 pontos
Carioca: 20 pontos
Gaúcho: 15 pontos
Mineiro: 15 pontos
Paranaense: 10 pontos
Baiano: 10 pontos
Pernambucano: 10 pontos
Demais estaduais: 5 pontos

Em relação aos estaduais foram dados pesos diferentes, levando-se em conta a participação dos representantes de cada estado nas demais competições. Como critério de desempate, foram considerados pela ordem: (1) a competição de maior pontuação e (2) número de conquistas.

Resultado Final – 1º Ranking Esporte Fino do Futebol Brasileiro

1º lugar – Internacional (RS) – 805 pontos
Vice Copa do Brasil (1)
Vice Campeonato Brasileiro – Série A (3)
Copa Sul-Americana (1)
Libertadores (2)
Mundial (1)
Estadual (7)

identifica

Com 4 títulos internacionais, Internacional lidera o ranking. Crédito: Jefferson Bernardes/Vipcomm

2º lugar – São Paulo (SP) – 675 pontos*
Campeonato Brasileiro – Série A (3)
Libertadores (1)
Vice Libertadores (1)
Mundial (1)
Estadual (1)

identifica

Com mais uma Libertadores e Mundial na bagagem, São Paulo ocupa o 2º lugar. Crédito: Lucas Uebel/Vipcomm

3º lugar – Santos (SP) – 590 pontos
Copa do Brasil (1)
Campeonato Brasileiro (2)
Vice Campeonato Brasileiro – Série A (2)
Libertadores (1)
Vice Libertadores (1)
Estadual (4)

identifica

Neymar e companhia fizeram o Santos crescer na última década. Hoje, ocupa a 3ª posição. Crédito: Wander Roberto/Vipcomm

4º lugar – Corinthians (SP) – 375 pontos
Copa do Brasil (2)
Vice Copa do Brasil (1)
Campeonato Brasileiro – Série A (2)
Vice Campeonato Brasileiro – Série A (1)
Campeonato Brasileiro – Série B (1)
Estadual (2)

5º lugar – Cruzeiro (MG) – 335 pontos
Copa do Brasil (1)
Campeonato Brasileiro – Série A (1)
Vice Campeonato Brasileiro – Série A (1)
Vice Libertadores (1)
Estadual (6)

6º lugar – Fluminense (RJ) – 295 pontos
Copa do Brasil (1)
Vice Copa do Brasil (1)
Campeonato Brasileiro – Série A (1)
Vice Libertadores (1)
Vice Copa Sul-Americana (1)
Estadual (2)

7º lugar – Flamengo (RJ) – 265 pontos
Copa do Brasil (1)
Vice Copa do Brasil (2)
Campeonato Brasileiro – Série A (1)
Estadual (5)

8º lugar – Grêmio (RS) – 190 pontos
Vice Campeonato Brasileiro – Série A (1)
Campeonato Brasileiro – Série B (1)
Vice Libertadores (1)
Estadual (3)

9º lugar – Vasco (RJ) – 155 pontos
Vice Campeonato Brasileiro – Série A (1)
Campeonato Brasileiro – Série B (1)
Copa do Brasil (1)
Vice Copa do Brasil (1)
Estadual (1)

10º lugar – Atlético Paranaense (PR) – 150 pontos
Vice Libertadores (1)
Vice Campeonato Brasileiro – Série A (1)
Estadual (3)

11º lugar – Sport (PE) – 120 pontos
Copa do Brasil (1)
Vice Campeonato Brasileiro – Série B (1)
Estadual (6)

12º lugar – Coritiba (PR) – 120 pontos**
Campeonato Brasileiro – Série B (2)
Vice Copa do Brasil (1)
Estadual (5)

13º lugar – São Caetano (SP) – 100 pontos
Vice Libertadores (1)
Estadual (1)

14º lugar – Vitória (BA) – 100 pontos
Vice Copa do Brasil (1)
Estadual (8)

15º lugar – Brasiliense (DF) – 80 pontos
Campeonato Brasileiro – Série B (1)
Vice Copa do Brasil (1)
Estadual (7)

16º lugar – Santo André (SP) – 60 pontos
Copa do Brasil (1)
Vice Campeonato Brasileiro – Série B (1)

17º lugar – Atlético Mineiro (MG) – 55 pontos
Campeonato Brasileiro – Série B (1)
Estadual (2)

18º lugar – Figueirense (SC) – 55 pontos
Vice Campeonato Brasileiro – Série B (1)
Vice Copa do Brasil (1)
Estadual (5)

19º lugar – Fortaleza (CE) – 55 pontos
Vice Campeonato Brasileiro – Série B (2)
Estadual (7)

20º lugar – Paulista (SP) – 50 pontos
Copa do Brasil (1)

21º lugar – Goiás (GO) – 50 pontos

Vice Copa Sul-Americana (1)
Estadual (4)

22º lugar – Botafogo (RJ) – 50 pontos
Vice Campeonato Brasileiro – Série B (1)
Estadual (2)

23º lugar – Palmeiras (SP) – 45 pontos
Campeonato Brasileiro – Série B (1)
Estadual (1)

24º lugar – Rio Branco (AC) – 40 pontos
Estadual (8)

25º lugar – Criciúma (SC) – 30 pontos
Campeonato Brasileiro – Série B (1)
Estadual (1)

26º lugar – Náutico (PE) e Santa Cruz (PE) – 30 pontos
Vice Campeonato Brasileiro – Série B (1)
Estadual (2)

27º lugar – Portuguesa (SP) – 25 pontos
Campeonato Brasileiro – Série B (1)

28º lugar – Ipatinga (MG) – 25 pontos
Vice Campeonato Brasileiro – Série B (1)
Estadual (1)

29º lugar – Paysandu (PA), ABC (RN) e Roraima (RR) – 25 pontos
Estadual (5)

30º lugar – Ituano (SP) – 20 pontos
Estadual (1)

31º lugar – Remo (PA), ASA (AL), Serra (ES), Sampaio Corrêa (MA), CENE (MS), Treze (PB), Confiança (SE) – 20 pontos
Estadual (4)

32º lugar – Caldense (MG) – 15 pontos
Estadual (1)

33º lugar - Ceará (CE), Atlético Goianiense (GO), Moto Club (MA), Ypiranga (AP), São José (AP), Trem (AP), Nacional (AM), Cuiabá (MT), Parnahyba (PI), Vilhena (RO), Ulbra (RO) e Palmas (TO) – 15 pontos

Estadual (3)

34º lugar – Guarani (SP) – 10 pontos
Vice Campeonato Brasileiro – Série B (1)

35º lugar - Iraty (PR), Paraná (PR), Paranavaí (PR), Palmeiras Nordeste (BA), Colo Colo (BA) e Bahia de Feira (BA) – 10 pontos

Estadual (1)

36º lugar - Avaí (SC), Chapecoense (SC), Gurupi (TO), Ríver (PI), Flamengo (PI), Campinense (PB), Operário (MT), São Mateus (ES), São Raimundo (AM), Penarol (AM), Coruripe (AL), América de Natal (RN), União Cacoalense (RO), Baré (RR), São Raimundo (RR), River Plate (SE) e Araguaína (TO) – 10 pontos

Estadual (2)

37º lugar – ADESG (AC), Juventus (AC), CSA (AL), Corinthians (AL), Murici (AL), CRB (AL), Cristal (AP), Coariense (AM), Holanda (AM), América (AM), CFZ (DF), Gama (DF), Ceilândia (DF), Alegrense (ES), Vitória (ES), Linhares (ES), Rio Branco (ES), Crac (GO), Itumbiara (GO), Vila Nova (GO), Imperatriz (MA), Maranhão (MA), JV Lideral (MA), Vila Aurora (MT), Cacerense (MT), Mixto (MT), Luverdense (MT), União Rondonópolis (MT), Chapadão (MS), Coxim (MS), Águia Negra (MS), Ivinhema (MS), Comercial (MS), Naviraiense (MS), Independente (PA), Atlético Cajazeirense (PB), Botafogo (PB), Nacional (PB), Sousa (PB), Barra (PI), Comercial (PI), 4 de Julho (PI), Potiguar de Mossoró (RN), ASSU (RN), Baraúnas (RN), CFA (RO), Espigão (RO), Real (RR), Sergipe (SE), Itabaiana (SE), Pirambu (SE), América (SE), Tocantinópolis (TO), Colinas (TO) e Tocantins (TO) – 5 pontos

Estadual (1)

*Inicialmente, consideramos como título estadual do São Paulo o Supercampeonato Paulista de 2002. Naquele ano, o campeão paulista foi o Ituano.
** Inicialmente, computamos apenas um título da Série B para o Coritiba. Na verdade, o Coxa tem dois campeonatos, em 2007 e 2010

          

6 de May de 2012

A casca do amendoim

por @FChiorino

Como é sempre o horário que a Maria Eduarda me acorda aos finais de semana, nem precisei colocar o despertador. O relógio aproximava-se das 10 horas da manhã e a minha filha já me puxava para fora do quarto para brincar na sala.

Ligo a TV e explico a ela que vamos adiar o desenho. Coloco na Rede Vida para acompanhar a última rodada da série A3 do Paulista. Juventus em campo, lutando por uma das quatro vagas de acesso.

O Moleque Travessou perdeu para o Grêmio de Osasco, mas, por um milagre de San Genaro, o Marília, que já estava desclassificado, empatou fora de casa com o Guaçuano. E assim o Juventus ficou com a segunda posição do seu grupo e garantiu presença na A2 de 2013. Eu pulei com a Maria Eduarda na sala, comemoramos juntos o único gol do Juventus no jogo e fiz ela cantar “Forza Juve” quando já estava selada a classificação.

A verdade é que já se disse quase tudo sobre a mística que envolve essa torcida. Todos já ouviram ou vivenciaram o que é a Rua Javari, comer cannoli do seu Toninho no intervalo, se deliciar com o cardápio da Esfiharia Juventus ou tomar uma antes e outra depois do jogo no Bar do Giba.

O Juventus mostra até hoje como um bairro se apropria de um time. E como é importante estar lá, respirando uma tradição que independe do resultado, da divisão, dos direitos de federação, das cotas de TV.

Para mim, entretanto, esse sentimento vai além desse que é um dos roteiros mais simpáticos de São Paulo. Torcer pelo Juventus é uma maneira de ter sempre na lembrança os 25 anos vividos na Mooca. E um dos primeiros recortes dessa memória é a primeira vez que meu pai me levou a um jogo de futebol. No estádio Conde Rodolfo Crespi, onde aprendi a quebrar a casca do amendoim, um particular rito de passagem.

Quando me recordo daquele dia, a primeira coisa que vem à mente é justamente aquela casca de amendoim sobre as minhas mãos pequenas. Até hoje busco o significado dessa imagem que não se esvai. Uma metáfora perfeita que explique a fixação do menino pelo clube da infância. Farelos de uma vida. Farelos do primeiro amor.

identifica

          

6 de May de 2012

Uma canção para Rasheed Yekini

A aurora do futebol africano nunca chega, mas estou na turma dos que não se cansam de esperar. Talvez no Brasil alguma seleção do gigantesco continente deslanche e alcance ao menos as semifinais, o que seria um feito e tanto.

Um pouco provável sucesso africano no Brasil teria uma simbologia também gigantesca, se considerarmos que a nossa tão celebrada habilidade com a bola se deve em grande parte aos antepassados africanos que vieram trabalhar por aqui contra a vontade e condenados a maus tratos.

O nome disso era escravidão. Não custa repetir, porque tem muita gente que parece fazer questão de esquecer: nossa sociedade conviveu com esta chaga até 124 anos atrás (um tempo bem pequeno).

Falemos de futebol. Em 1994, quatro ano após o sucesso de Camarões na Itália, a seleção da Nigéria chegou cheia de moral aos Estados Unidos. E não decepcionou de forma alguma, se considerarmos que só foi ser eliminada pela Itália, na prorrogação das oitavas de final.

O autor do primeiro gol da Nigéria na história das Copas, na estreia contra a Bulgária, em Dallas, comemorou à altura do feito. Talvez ao lado de Falcão e Tardelli, ambos em 1982, Rasheed Yekini, soltando a voz e as lágrimas agarrado à rede, protagonize um “top 3″ das maiores comemorações da história das Copas.

Pois Yekini morrou no sábado, dia 5 de maio, aos 48 anos, de causas ainda não esclarecidas. Ele merece uma canção só para ele, melancólica e alegre ao mesmo tempo, retratando bem a alma do continente onde nasceu.

Yekini, agarrado à rede, me faz ter a triste certeza de que o mundo só vai dar certo de verdade quando a África for um continente harmonioso.

Veja o gol de Yekini contra a Bulgária:

          

5 de May de 2012

Battersea une o Chelsea ao Pink Floyd (e a fantasmas ingleses)

AnimalsO Chelsea anunciou na última sexta-feira a intenção de comprar a histórica Usina de Battersea, distante cerca de 4km de Stamford Bridge. A intenção do clube é construir ali um novo estádio, com cenário único, preservando as quatro chaminés características da construção.

Stamford Bridge tem capacidade para 42 mil pessoas, enquanto o novo estádio poderia receber 60 mil. Também pesa na decisão a dificuldade em vender o “naming rights” do antigo estádio, cujo nome já está consolidado (qualquer semelhança com o Corinthians implorando para a imprensa abolir “Fielzão” ou “Itaquerão” não é mera coincidência).

A tarefa do Chelsea, porém, não será fácil. Torcedores organizados têm direitos financeiros sobre Stamford Bridge desde 1997 e não parecem dispostos a deixar o clube mudar de endereço. (Hei, são-paulino, saiba que há gente doida para comprar o terreno do Morumbi e construir um estádio em lugar próximo).

Outra questão interessante sobre Battersea é sua importância para o rock. A usina foi imortalizada na capa do álbum “Animals”, de 1977. Se para o Chelsea não será fácil mudar de endereço, também não é fácil ouvir “Animals”.

Não porque seja ruim, muito pelo contrário. Mas por exigir uma dose de dedicação complicada para quem está a fim de simplesmente “curtir um som”.

Aliás, é esse o maior problema do rock progressivo e/ou conceitual. Ao se dar muita importância, acaba se afastando… Mas, repito, assim como o Floyd é uma banda fundamental, “Animals” é também um grande álbum (embora carente de hits, ao contrário do antecessor “Wish You Were Here” e do sucessor “The Wall”).

Seja como for, o que imortalizou “Animals” no cenário do rock foi mesmo a antológica capa. Trata-se de um porco inflável “voando” sobre a Usina Termoelétrica de Battersea, em Londres. Lúgubre e um tanto perturbadora, a imponente usina foi desativada em 1983.

Movida a carvão e decadente, ela passou a simbolizar em seus anos derradeiros a crise econômica e o “aperto” da classe trabalhadora ante os ajustes da economia (liberal) promovida por Margaret Thacher.

Pensando bem, um estádio com esse visual e essa carga histórica seria bem bacana… É esperar para ver.

          

2 de May de 2012

Champions League: quem vencerá?

Por @FChiorino

No dia 19 de maio, Bayern de Munique e Chelsea entram na Allianz Arena para a disputa da final da Champions League. Se cairmos na velha mania de apontar favoritos, o Bayern larga bem na frente. Primeiro porque jogará no seu estádio, o que lhe dá uma considerável vantagem em relação à torcida. Além disso, o clube alemão, pelo menos no papel, é superior tecnicamente ao time inglês.

O Bayern não poderá contar com Luiz Gustavo, David Alaba e Holger Badstuber, titulares na segunda semifinal contra o Real Madrid. Já os londrinos irão a campo sem Ivanovic, Raúl Meireles, John Terry e Ramires, também titulares contra o Barcelona. Apesar do aparente equilíbrio em relação aos desfalques, o Chelsea também se mostra em desvantagem, devido às ausências do capitão Terry e de Ramires, o melhor jogador da equipe na semifinal.

Mas como futebol é o mais imprevisível de todos os esportes e estamos a falar de uma decisão em partida única, não há nada que desabilite o Chelsea dessa conquista. Afinal, há algumas semanas, grande parte da mídia esportiva desperdiçou tempo imaginando a final entre Real Madrid e Barcelona, até porque ambos decidiram o confronto em casa.

Se analisarmos o caminho dos dois clubes até a final, o Chelsea é seguramente o time que mais se superou. Enfrentou nas oitavas um empolgado Napoli, perdendo a primeira partida por 3 a 1 e revertendo o placar na prorrogação do segundo jogo. Enquanto isso, apesar de uma derrota por 1 a 0 no primeiro embate, o Bayern meteu uma sacola de 7 gols contra o Basel em Munique. Nas quarta-de-final, sem diferenças significativas: mesmo sem brilho, Bayern e Chelsea venceram as duas partidas nos confrontos contra Olympique e Benfica, respectivamente.

As épicas semifinais previam um confronto mais equilibrado entre Bayern e Madrid e um Chelsea à espera de um milagre contra o ultra badalado Barcelona. O Bayern suou a camisa para se classificar só na disputa de pênaltis. Já o Chelsea não precisou de milagre algum. Com uma disposição tática eficiente, venceu a primeira partida, empatou a segunda e deixou pra trás Messi, Guardiola e companhia.

Vamos descer do muro. Meu palpite é Bayern de Munique 2 x 1 Chelsea, mas certo de que uma vitória dos ingleses jamais poderá ser apontada como zebra. Enfim, bola rolando é sempre melhor que as análises. Que logo se ouça novamente o hino da Champions League. Mais um dia para entrar na história do futebol.

          

30 de April de 2012

Somos todos velhas fofoqueiras

Por @maia_otavio

Já ouvi argumentos a perder de vista, mas até agora não entendi a verdadeira razão pela qual nós, torcedores comuns, reclamamos tanto do melhor jogador brasileiro em atividade.

Tudo bem, Neymar pode não ser perfeito, pode não ser o homem que sonhamos para casar com a nossa filha, mas não dá fechar os olhos ao fato de que ele sintetiza tudo aquilo por que clamamos tanto nos últimos anos.

Senão vejamos:

(i)No momento em que o Brasil sente falta do seu futebol genuíno e amarga um festival de chutões, chuveirinhos e volantes cabeças-de-bagre, o camisa 11 dá espetáculo, com direito a dribles geniais, assistências desconcertantes (que a gente tende a ignorar) e gols de placa.

(ii)No momento em que estamos de saco cheio de atletas descomprometidos e sem brilho nos olhos, o atacante mostra uma fome de bola e um prazer de jogar futebol inquestionáveis, que resultam em atuações sempre vibrantes, mesmo nos dias em que falta inspiração.

(iii)Justo na hora em que o torcedor se ressente de ter na Seleção ou no nosso clube do coração um craque legítimo, daqueles que decidem nas horas mais importantes, o santista cansa de desequilibrar partidas cruciais.

(iv)Num contexto em que nos tornamos coadjuvantes no futebol internacional e estamos longe dos holofotes, Neymar mostra que é uma estrela de primeira grandeza, daquelas com capacidade para chegar ao topo do mundo e ficar marcada na história do esporte.

(v)Nessa dura entressafra, em que além de tudo nossos poucos bons nomes passam longas temporadas no estaleiro, o craque apanha, dá o sangue, mas nunca se contunde e jamais fica de fora de jogo algum, nem da pelada mais irrelevante.

Neymar é a melhor notícia do futebol brasileiro em muitos anos. Para mim, isso é fato consumado, sem margem para discussão. O que não entra na minha cabeça é que, quando finalmente surge um atleta com tantos atributos, nós não ficamos satisfeitos. Em vez de apreciarmos e celebrarmos o novo talento, fazemos beicinho e mostramos indignação com coisas completamente sem importância para o esporte. Faz diferença se ele corta o cabelo tigelinha ou com topete? Se usa chuteira rosa ou preta? Se fala bem ou mal numa entrevista?

Não custa lembrar que outros grandes nomes do futebol, como Romário, Pelé e Ronaldo, também não eram símbolos da humildade, do bom gosto ou da simpatia. Mesmo assim, marcaram seus nomes na história e foram reverenciados por todos nós.

O talento de Neymar não casa com a nossa implicância. Pelo menos não com esse nível de implicância. E só vejo três explicações para isso: ou somos recalcados porque o atacante samba na nossa cara toda vez que enfrenta nosso time, o que é uma alternativa lógica e viável; ou não gostamos de futebol, tese que considero bastante frágil; ou somos todos velhas fofoqueiras disfarçados de entendidos de futebol – opção que me parece a mais provável.

          

30 de April de 2012

O São Paulo a caminho da depressão

Por @FChiorino

 Aquele São Paulo tricampeão (2006 a 2008) do Campeonato Brasileiro não era brilhante. Não foi em nenhum dos títulos conquistados sob a batuta de Muricy Ramalho. Era um time extremamente eficiente. Ganhava por placares magros e tomava poucos gols. Muito parecido, inclusive, com o Corinthians dos últimos dois anos. Mas ali existia uma equipe com um objetivo claro: errar o menos possível e reverter esse perfeccionismo em soberania.

Muricy se foi e a herança que ficou é nula. Os bons zagueiros aos poucos foram vendidos para a Europa, os meias sumiram do mapa e o ataque foi sendo definido na base da tentativa e erro. Hoje, o São Paulo, além de não encantar, é um time nada confiável. Uma boa sequência de vitórias com Emerson Leão chegou a iludir alguns torcedores, mas se trata de um mero efeito colateral dos estaduais. A primeira decisão surgiu e o que se viu em campo foi alguma boa vontade e uma inferioridade técnica considerável em relação ao Santos.

Uma prova da crise velada pela qual passa o tricolor paulista é o enorme tempo despendido para questões banais, como a irritante disputa pela Taça das Bolinhas e o eventual busto a Juvenal Juvêncio, que usa de manobras política para tentar se manter na presidência do clube. O São Paulo ainda se meteu num imbróglio judicial envolvendo o jogador Oscar, o que, mesmo fazendo valer os seus direitos, provocou um desgaste ainda maior com a CBF, com quem o clube há tempos não nutre uma boa relação.

O São Paulo também viu nascer Lucas, alçado prematuramente como ídolo e que a cada jogo se mostra um jogador desprovido do brio suficiente para ganhar a simpatia do próprio torcedor. Para quem já bateu palmas para Zetti, Kaká, Rogério Ceni e Raí, Lucas é um arremedo de craque, visivelmente preocupado com os pauzinhos mexidos por Wagner Ribeiro. A falta de comprometimento ficou escancarada nos últimos dias, quando vazou a informação de que o agente e os pais do jogador já conversavam com dirigentes do Real Madrid. Tudo isso numa semana de jogo decisivo pelo Campeonato Paulista. O timing não poderia ser mais desastroso.

Resta nesse primeiro semestre a Copa do Brasil, com o risco de se ver em campo um time desmotivado e sem norte. Por muitos anos, o tricolor foi visto como modelo de gestão entre os grandes clubes do Brasil. Poucas trocas de técnicos, imune a crises, elenco unido, sala de troféus cada vez mais cheia. Esse tempo acabou. O São Paulo se tornou refém de sua própria petulância, ao acreditar que o modelo nunca precisaria ser revisto.

As Libertadores e Mundiais continuam sendo diferenciais no currículo, mas não podem eternamente encobrir os erros do presente. O São Paulo ficou pra trás e precisa abrir os olhos para evitar cair na depressão que, por exemplo, acometeu o Palmeiras. Enquanto isso não acontece, a espessura do muro da Barra Funda que separa esses dois clubes só tende a diminuir.