A sul-africana Caster Semenya brilhou no Mundial de Atletismo, ganhou a medalha de ouro nos 800m e se tornou uma lenda viva em seu país. Mas, como se sabe, o assombro provocado pela sua força e pelos seus traços andrógenos fez com que ela tenha de se submeter a exames para provar que é, de fato, mulher. O episódio, constrangedor em si mesmo, fez renascer a história de uma atleta igualmente incrível: a tcheca Jarmila Kratochvilova.
O episódio aconteceu no ano de 1983, em Munique, Alemanha. Naquela tarde, a atleta, já aos 32 anos, cravou um tempo que nem ela considerava crível. Com 1min53, estraçalhou o recorde mundial dos 800m e, para se ter idéia, 26 anos depois a marca continua intacta – já é o recorde mais antigo de todos “em atividade”.
Num contexto em que o controle antidoping era precário e a Guerra Fria
tornava a disputa entre os EUA e o Leste ainda mais acirrada, a tcheca
impressionava por sua explosão física e traços andrógenos – que levantavam as mesmas suspeitas que agora circundam Semenya. Um ano antes de anotar o tempo histórico, Jarmila se irritou com as sucessivas perguntas sobre doping e sua tal masculinidade, a ponto de disparar uma frase desconcertante. “Não tenho culpa de ser feia e ter essa aparência que tenho”, falou.
O mais curioso é que Kratochvilova era, na verdade, uma especialista
nos 400m – e que vivia às sombras da lendária Marita Koch, outra que era alvo dos mesmos questionamentos. Quando chegou ao meeting de Munique, o objetivo da tcheca era se preparar para ganhar o ouro nos 200m e 400m em Helsinki, poucas semanas depois. Mas, como sentiu câimbras num treinamento, o treinador recomendou que disputasse, no lugar da sua especialidade, a prova de 800m, que exige menos explosão.
“Era apenas a terceira vez na minha vida que eu corria os 800m. Não havia nada em jogo, só queria treinar para os 400m. Essas sensações provavelmente ajudaram”, explicou a atleta. “Quando faltavam 30m, olhei para o relógio e alucinei. A cinco metros da chegada eu dizia a mim mesmo que o cronometro devia estar errado.”
A chegada de Jarmila assombrou o mundo. Nas palavras do Diário Marca,
publicadas no dia seguinte, “ela deu a segunda volta na pista sozinha e com uma força assombrosa”. A supremacia foi tanta que a segunda colocada chegou incríveis sete segundos atrás.
Os registros sobre o recorde de 1983 não são fartos, mas abaixo pode-se provar um pouco da explosão de Kratochvilova num vídeo em que ela aparece de branco, fechando a prova de revezamento 4 x 400m. Não será difícil a ninguém identificá-la!
E as suspeitas sobre a autenticidade daquela marca continuam de pé – tanto quanto o próprio recorde. Sem data para expirar.


extremamente suspeita essa Kratochvilova, eu já havia visto uma foto dela em outro blog e já havia percebido que lgo não estava certo ali …. uma pena que nos anos 80 os testes não eram tão eficientes.
26 de August de 2009 às 12:09Muito interessante! Não gosto de nenhum tipo de preconceito, mas sem dúvida seriam bem-vindos alguns exames para identificar se estamos comprando gato por lebre. E, para mim, de andrógino (aprendi hoje que andrógeno – como bem usou o Otavio – e andrógino têm significados diferentes). Enfim, de andrógino legal mesmo só o David Bowie nos anos 70…
26 de August de 2009 às 14:52E ninguém nunca desconfiou da Edinanci!!!
P.S.: Andrógino, adjetivo comum aos anos 80. Nessa década decadente onde a falta de referências boas é tão grande que tudo vira moda retrô, nada mais justo do que lembrar dessa palavra que foi tão comum naquela época! haha
26 de August de 2009 às 18:29[...] – A revolta de Antônio conselheiro – Bojan e o novo comercial da Nike – Semenya, mulheres andrógenas e o recorde que nunca caiu Share and [...]
27 de August de 2009 às 21:48