Leio que a apresentação de Cristiano Ronaldo no Real Madrid reuniu cerca de 90 mil torcedores no Santiago Bernabéu em plena segunda-feira. Na semana passada, 60 mil viram a chegada de Kaká. Fogos, luzes, carreatas, shows… A cidade em transe por conta da aterrissagem de um novo craque. Ok, ok, isso significa que são atletas de grande valor, que os grandes clubes europeus são bons organizadores de eventos midiáticos etc… Mas também que há um grande exagero quando se embarca no clichê de que o Brasil é o país mais fanático por futebol, onde as crianças e adultos dormem abraçados às suas bolas.

É verdade que os grandes jogadores que aqui atuam são aqui formados, daí não haver um paralelo com o impacto da apresentação de grandes craques no Velho Continente. Revelados, os bons valores vão à Europa, jogam o seu melhor e, quando voltam, geralmente estão longe do auge e não causam frisson. Mas, ainda assim, quantas festas parecidas com essas já se viu em Terra Brasilis? Comparável a isso somente celebrações de grandes títulos. E olhe lá.
E fora daqui os exemplos pululam. O grande rival do Real Madrid, o Barcelona, reuniu 35 mil no ano passado para apresentar Thierry Henry. O italiano Milan, ex-clube de Kaká, levou 4 mil fanáticos para acompanhar no aeroporto o desembarque do decadente Ronaldinho Gaúcho. Na Inglaterra, campeonato nacional com média de público que ultrapassa os 35 mil por jogo.
Vale lembrar que a paixão não está somente nos grandes centros. Não há jogador que passe pelo futebol turco, por exemplo, e não se impressione com o fanatismo de um país com tão pouca tradição no futebol. Para se ter idéia, a rivalidade obrigou o Mc Donalds a trocar o tradicional vermelho e amarelo de sua loja próxima ao estádio do Besiktas porque as cores aludem ao uniforme do Galatasaray.
Quando o assunto é a seleção nacional, a discrepância entre o que diz o senso comum e a realidade lá fora aumenta ainda mais. Galvão diz que o brasileiro é apaixonado pela Seleção Canarinho. Mas não há quem conte os minutos em ansiedade para ver um jogo do time de Dunga nas Eliminatórias, por exemplo. Letargia e desânimo muito diferentes do que vi quando estive em Bogotá, há dois anos, na data de um Colômbia versus Brasil. Aquele foi o único assunto da semana. Quando a bola rolou, os locais se descabelaram junto dos narradores a cada lance de ataque. E eu pensava “que pessoal exagerado…”, Mas talvez a palavra certa fosse apaixonado. No Uruguai, experiência semelhante. Argentina… Nem é preciso dizer.
Não é a intenção afirmar que brasileiro não gosta de futebol. Mas curioso que o Ibope tenha identificado em pesquisa nacional que, num país em que todos nascem chutando bolas, 26% da população não torce para nenhum clube. Que o Brasil é o que melhor joga futebol no Planeta é aceitável, já que corroborado pelos números e pela história; pouco, todavia, para fazer de nós o centro do Universo quando o assunto é o esporte de Pelé, mas também de Maradona, Puskas, Zidane e muitos outros.


É verdade. De fato, é um bom mito essa história de que somos o país do futebol. Produzimos muitos craques e as pessoas jogam desde cedo. Mas daí a dizer que somos mais fanáticos do que ingleses ou argentinos é um grande absurdo. Como disse o amigo Borges, o brasileiro gosta é de vitórias. De esporte, nem tanto.
8 de July de 2009 às 11:36Não diria que o brasileiro seja fanático, apaixonado com certeza já foi. Quando moleque, via nas rodas de amigos, nos bares, nos botecos, o que se comentavam eram as jogadas, a plástica dos lances e os gols, claro que o craque do time adversário não passava em branco, era xingado, mas admirado, pois o “desgraçado” joga muito. Daí veio a minha paixão pelo esporte.
8 de July de 2009 às 12:39Precisamos de um antropólogo para desvendar em que momento perdemos isso, afinal, hoje o que importa é o resultado, é quem ganhou, infelizmente.
Cara, grande sacada esse texto. Só uma singela correção, as cores do Mc Donalds aludem ao uniforme do Galatasaray, não do Fenerbahçe.
8 de July de 2009 às 13:56Toda razão, André!! Já arrumamos! Obrigado pela participação!
8 de July de 2009 às 14:10O brasileiro não tem muito do que se orgulhar, e a mídia precisa sempre de algum factóide pra fazer o bolo crescer. Esse papo de que Brasil é o país do futebol caiu por terra pra mim quando visitei a Inglaterra pela primeira vez, em 1996. E olha que naquela época a Premier League não era nem metade do que é hoje. Só se falava em futebol. Camisas de futebol pra todo lado (muito mais do que aqui), cheguei a ver grupos de velhinhas bem além dos 80 anos discutindo seriamente a escalação do “english team”, coisa que jamais vi por essas bandas, nem em época de Copa do Mundo. A média de público da segunda divisão inglesa é muito maior do que da nossa primeira divisão. E não adianta vir dizer que aqui não há público por culpa dos dirigentes simplesmente, falta de organização, etc, pois se este fosse realmente o “país do futebol”, teríamos um público fanático e engajado que sequer permitiria que as coisas continuassem como estão. A observação do Borges, lembrada pelo Luiz, é perfeita, matadora. Brasileiro gosta de levar vantagem. Se o futebol parece ser a melhor maneira pra conseguir isso, ele embarca na do futebol e sai por aí bradando aos quatro ventos que esse aqui é o lugar. Senão, não tá nem aí.
8 de July de 2009 às 17:53Em um país em que o futebol ainda é visto por falsos intelectuais como coisa de analfabeto, alienado e coisas piores, fica mesmo dificil alguém ser fanático por por essas bandas… rs.
8 de July de 2009 às 23:30Como já foi dito aqui mesmo: o brasileiro é apaixonado por vencedores, não pelo esporte. Só apoia o esportista quando está em boa fase, e não faltam exemplos.
12 de July de 2009 às 19:23